TURQUIA-Crise Justiça proíbe uso do véu e pode ilegalizar partido do poder

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TURQUIA-Crise Justiça proíbe uso do véu e pode ilegalizar partido do poder

Mensagem  Admin em Dom Jun 15, 2008 2:05 am

Turquia
Crise Justiça proíbe uso do véu e pode ilegalizar partido do poder
Laicismo e islão em pé de guerra



Centenas de mulheres protestaram à porta do Tribunal Constitucional contra a proibição do uso do véu nos estabelecimentos de ensino FOTO UMIT BEKTAS/REUTERS

Sinto ódio nos olhos das pessoas quando me vêem com o lenço a cobrir a minha cabeça”. Ayse, 40 anos, mulher-a-dias, vem todos os dias trabalhar para Cankaya, o bairro chique de Ancara, onde vive a maior parte da elite da capital turca. “Durante anos nunca tive qualquer problema, mas o ambiente mudou. Agora não me sinto bem-vinda, sempre por causa do meu lenço”
Já Ozge, uma jovem investigadora universitária, diz o mesmo dos bairros mais populares conservadores: “Eles são uns radicais, uns fundamentalistas. Insultam-me quando vou sozinha, com as minhas roupas modernas, e a cabeça descoberta. E cada vez há menos ruas ‘normais’”.
‘Nós e Eles’. A Turquia está profundamente polarizada. Entre a elite secular que governou o país durante décadas, e o “novo poder”, simbolizado pelo actual primeiro-ministro, Recep Tayyip Erdogan, e o seu Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP), mais conservador e islâmico, que governa a Turquia com maioria absoluta há 4 anos, dando voz a uma Anatólia profunda, até então ignorada.
“Essa gente não sai das cidades, e só conhecem a estrada para Bodrum (estância balnear chique). Não conhecem o próprio país, têm vergonha do ‘povo estúpido’, sempre encheram os bolsos, e acham-se no direito de decidir por nós. Só eles sabem o que é melhor para a Turquia”, comentava o barbeiro Alper. “pelo menos, o primeiro-ministro Erdogan fala a nossa língua”.
O islamista-agora-democrata primeiro-ministro fez da adesão à UE a sua principal bandeira, e no seu primeiro mandato legislou pacote sobre pacote de reformas. Aboliu a pena de morte, expandiu direitos das minorias étnicas (incluindo a curda), reforçou direitos e garantias, extinguiu restrições à liberdade de expressão, e reforçou o controlo civil das instituições do Estado. Bruxelas deu à Turquia o estatuto de país candidato a uma adesão plena à UE, e a economia reagiu bem (crescimento médio de 7%/ano).
“O AKP ficou intoxicado com a vitória eleitoral de Julho passado. Começaram a ser mais arrogantes, menos conciliatórios”, sugere Mehmet Ali Birand, um conhecido jornalista. “Isto veio agudizar o combate ideológico”. “Há cada vez mais mulheres cobertas, e em muitos bairros e empresas só quem tem mulher com véu consegue trabalho ou casa, é assustador”, desabafa Korkut, um jovem médico.
A elite laica - ou o que resta dela - reagiu com agressividade. Primeiro os militares, com os seus constantes ‘avisos’. Depois, o poder judicial. A “sinistra juristocracia”, como foi apelidada, quer agora banir o AKP por actividades antilaicas. Alguns liberais falam em “golpe de estado judicial”.
O medo de um novo Irão



Há três meses o procurador-geral submeteu ao Tribunal Constitucional um processo pedindo a extinção do AKP e a proibição de exercer política por cinco anos para Erdogan, Gul e mais 69 altos dirigentes do partido.
A generalidade dos observadores acredita mesmo que o partido do Governo tem os dias contados - na semana passada o mesmo Tribunal Constitucional, que decidirá o futuro do partido no poder, decidiu vetar a emenda constitucional aprovada pelo Parlamento há uns meses, que autorizava a utilização do véu islâmico nas universidades, com os mesmos argumentos que o procurador-geral usa no processo contra o AKP - “foco de actividades anti-seculares”.
Se o AKP for ilegalizado, como parece provável, todos os cenários apontam para uma refundação do partido e novas eleições legislativas - mas entretanto o país conspira, o confronto ideológico é intenso, a crise política está instalada. Cresce a tensão entre “nós e eles”.
Na rua, a religião divide cada vez mais. “Ninguém conseguirá contrariar as ordens de Deus, que ordenou o véu islâmico”, lia-se num cartaz deixado em frente ao Tribunal Constitucional, prontamente removido. Gozde, uma jovem advogada, não tem dúvidas: “Aos poucos o AKP está a transformar a Turquia num novo Irão. Este não é o meu país. Espero que o partido feche as portas, e que eles desapareçam para sempre. Com ou sem democracia”, disse ao Expresso.
José Pedro Tavares, correspondente em Ancara

http://aeiou.semanal.expresso.pt/1caderno/internacional.asp?edition=1859&articleid=ES294101
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