Coisas das segundas-feiras

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Coisas das segundas-feiras

Mensagem  Vitor mango em Seg Jun 16, 2008 3:12 pm

Coisas das segundas-feiras








Ivan Lessa
Colunista da BBC Brasil







Começo
de semana. Segunda. Gente reclamando. Tal e qual sucedeu na canção
popular, só que roqueira: o grande, aliás o único, sucesso da banda
Boomtown Rats, aquela do Bob Geldorf, antes do boneco emplacar um disco
de ouro por salvar o mundo. I Don't like Mondays. Comentário de uma assassina pô-louca americana, Brenda Spencer, que serviu de inspiração para o ora “sir” anglo-irlandês.



Quase
todos botam defeito na segunda-feira. Eu acho uma graça. A tchiurma
indo trabalhar direitinho, os assassinos em casa curtindo uma ressaca,
falando sozinhos e armando revólver, rifle ou arcabuz. A Humanidade é
melhor de reclamação do que louvação.

Estão aí pesquisas rigorosamente científicas que não me deixam mentir. Está aí também o filósofo Jullian Baggini, que dedicou
um livro inteiro à universal mania de reclamar. O título da obra é Queixa: das lamentações menores a protestos baseados em princípios. Muito longo. Vou logo me queixando e protestando.



São os britânicos o povo que mais reclama do mundo. Segundo eles, os britânicos. Queixo-me de novo discordando. Todo mundo
se queixa, reclama, protesta. Faz parte da condição humana. De segunda a domingo.


Nos Estados Unidos, a luta pelos direitos civis, parcialmente já vencida (pelo menos até o dia em que o Sr. e a Sra. Obama
tomarem posse, tornando assim realidade o sonho do reverendo Martin Luther King Jr), começou com uma queixa.


Todos
conhecem a história. Rosa Parks. No dia 1 de dezembro de 1955, na
cidade de Montgomery, estado do Alabama, recusou-se a se levantar do
lugar onde estava sentada para cedê-lo a um branco. Foi dada assim a
partida para a renhida peleja brancos versus negros. Rosa Parks é,
hoje, ícone, estátua e inspiração.

Ninguém se
lembra do nome do motorista do ônibus, o que deu ensejo ao sacudido
movimento. Era James Blake, diligente funcionário da companhia de
ônibus para a qual trabalhou a vida inteira até sua morte, no ano de
2002. Não ganhou sequer uma placa. Tem gente que reclama do fato.

A reclamação
me leva de volta ao tópico em questão. A queixa. Segundo o filósofo
Baggini, que, na verdade, tem nome de centro-avante do Milan e da
seleção italiana (“…bola com Baggini que mata no peito e olha para as
pontas esperando alguém para poder passar… ninguém… Baggini com as duas
mãos na cintura reclama aos palavrões …”), até que bate uma bola
filosófica legal.

Diz ele que
“queixar-se, de uma maneira geral, é uma forma de assegurar nossos
valores”. Também pode ser uma forma de se comunicar, nem que seja para
discutir o danado do tempo, coisa mole aqui nas ilhas.

O importante
da comunicação é não ficar em casa feito a mocinha americana que não ia
lá com as segundas-feiras e saiu “pela aí” mandando bala. Tivesse ela
pegado um ônibus e se dirigido com sua birra para o desconhecido
sentado ao seu lado, talvez estivesse vivo quem ela fez subir.
Queixar-se é uma forma de mostrarmos nossas paixões.

Ninguém se
queixa, ou perde tempo, falando das coisas que lhe são indiferentes.
Toda queixa, e só queixa, constrói. Toda queixa é política. Como uma
imprensada no vereador ou deputado que não cumpriu as promessas feitas
durante a campanha eleitoral.

Aqui no Reino Unido

Os
cidadãos britânicos são, em essência, pessimistas. O que os aproxima de
uma realidade plausível. Viver, aqui, ali ou acolá, é uma chatice
infernal. Vital é afirmar isso em voz alta. Mesmo para os
desconhecidos. O risco de prisão e internação em hospício constituem,
em si, motivo de mais queixas. O mundo é redondo e circular. Não há
como dele escapar. E, sim, isto é uma queixa.

Uma pesquisa
foi feita no Reino Unido. Mais uma tediosa e tola pesquisa. (A queixa,
a lamúria e a lamentação, feito a liberdade, exigem eterna vigilância)
Chegou-se, dest'arte a uma lista, vulgar e sem graça como todas as
listas. Além do mais, arredondando o número de chatices para dez, o que
não pode ser mais brega.

A lista

Em
primeiro lugar, queixar-se do azar, ou, seu equivalente, o destino.
Seguido de problemas de saúde, um assunto predileto, mas isso para quem
não sofre, como eu, de arritmia, fibrilação auricular e enfisema,
coisas que só mau-olhado, despacho ou artes do Demo explicam.

Em terceiro
lugar, eles acham que tudo na vida piorou e que era muito melhor antes,
um antes sempre vago, sempre indefinido. Quanta tolice. Seguem-se:
queixas dos cônjuges, amigos ou parceiros e parceiras. Tem uma certa
razão aí, os britânicos. Essa gentinha toda não vale nada.

Só em quinto
lugar é que surge reclamação do tempo, essa que virou piada universal.
Os britânicos, apesar de terem o tempo todo muita e variada
meteorologia, se aborrecem com ela porque não sabem o que é um sol no
lombo e na cabeça o ano inteiro. Pobres coitados.

Em sexto
lugar, vêm os líderes religiosos. Quase que concordo, mas, quando me
lembro de nossos pretos véios, pombagiras, despachos e toda nossa
macumba, dou meia-volta volver.

Enfileirando
as quatro catimbas que mais aporrinham os locais: o preço das coisas, o
transporte público e o trânsito, a corrupção dos políticos e a
televisão.

Aí, nestes
pontos finais, sou obrigado a mais ou menos concordar. Mas quicando e
argumentando que a turma não sabe de nada. Nunca abandonarei o sagrado
direito de me queixar. Dessem uma chegadinha a nossos tão divulgados
cartões-postais, que de cima e longe é bonito, e aí então veriam o que
é bom.
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