Conferência de Auto-ajuda

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Conferência de Auto-ajuda

Mensagem  Admin em Sab Jun 21, 2008 8:43 pm

Auto-ajuda
Bob Proctor. Ex-freiras, desempregados e empresários foram ouvir o guru da auto-ajuda. Psicólogos alertam para os perigos do «best-seller»
Qual é o segredo?

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Dezenas de jovens com «t-shirts» de uma organização de eventos fizeram claque durante as palestras de Adelino Cunha e do canadiano Bob Proctor


Pensar positivo foi coisa de que Bob Proctor, guru de ‘O Segredo’, se deve ter esquecido antes de entrar no palco do Pavilhão Atlântico, na noite de quarta-feira. É que (quase) tudo lhe correu mal durante a apresentação de duas horas: os gráficos projectados na parede tinham vida própria, as legendas (anunciadas como sendo um sistema avançado de tradução único do mundo) pareciam ser de romeno e não português e até a voz o atraiçoou. Às tantas, o filósofo motivacional de 70 anos não evitou uma miniexplosão: “É a última vez que não uso o meu computador”.



«BEST-SELLER» DA AUTO-AJUDA A premissa de ‘O Segredo’ (publicado em Portugal pela editora Lua de Papel) é a de que através da lei da atracção cada um de nós tem a possibilidade de alcançar os objectivos que pretende, bastando para tal criar na mente a imagem deles. O lema resume-se a três palavras: Peça, acredite e receba. Ou seja, ‘querer é poder’. Os autores garantem que o livro é útil para as finanças, saúde e relações pessoais.

Os risos e as palmas mornas dos cerca de dez mil espectadores eram a prova de que a esperada noite da revelação teria de ficar para outra ocasião. “Estou um bocado confusa. Confesso que prefiro o livro e o DVD”, sussurra a trintona Madalena às duas amigas que tiram apontamentos com ajuda da luz do telemóvel, no Balcão 1. Nenhuma das loiras com madeixas pintadas de fresco, mala de estilista famoso e sapatos altos reluzentes, discorda. Uma fila acima, José Alves, de 45 anos, enfiado num fato formal sem gravata, pelo contrário, sorve as receitas de sucesso apregoadas por Bob Proctor, como ‘Trabalhe menos e ganhe mais’ ou ‘Mentes fechadas não inspiram fé, crença e coragem’. “Eu já as aplico no dia-a-dia. Só trabalho duas horas por dia e ganho dois mil euros por mês”, explica o vendedor de uma empresa multinível, que veio de Alverca num monovolume mas sonha em comprar um Mercedes. “Quer um cartão meu?”, pergunta à primeira oportunidade.

Madalena e José pertencem a uma das tribos urbanas mais «in» no Atlântico: a dos pequenos-mas-ambiciosos empresários. Mas é a classe média apertada pela crise (mas ainda com 60 euros de parte para pagar o bilhete) que preenche a maior parte dos lugares da plateia. Alguns são igualmente vistosos e perfumados. É o caso de Maria do Carmo, 50 anos bem conservados, que veste de amarelo, para dar sorte. A administrativa de Alcochete garante que ‘O Segredo’ lhe mudou a vida: “Há um ano era uma mulher devastada pelo fim de uma relação amorosa. Hoje sou uma pessoa confiante porque me ‘agarrei’ ao livro. E já não quero saber do careca que me deu com os pés”.

Mais discreta, a desempregada Maria João Fernandes, de 39 anos, viajou de comboio do Cacém com a vizinha até à estação do Oriente: “Todos os dias desejo com força um emprego e um carro ecológico”, confessa. “E acredito que eles se vão concretizar. Mesmo que não seja já amanhã”. Para ela, só o facto de estar a assistir à palestra de Bob Proctor é por si só um sinal de milagre: “Queria vir cá, mas não tinha dinheiro. Tanto acreditei, que ganhei um convite de um jornal gratuito, depois de escrever uma frase sobre o evento”.

Se houvesse um prémio de maior devota do «best-seller» este iria no entanto para Helena Adão, de 55 anos. “‘O Segredo’ é mais importante do que a Bíblia. É ele que nos revela a Verdade e não a Igreja Católica”, exclama a ex-freira de uma ordem franciscana, que traz sempre o livro na mala. “Chego a ler passagens aos passageiros do comboio. Muitos compraram esta obra por minha causa”, admite. No final da noite, Helena aplaude de pé o orador canadiano, como se acabasse de ver desvendados os segredos do universo: “Estou rendida.”

Mera pseudo-ciência?





Os psicólogos contactados pelo Expresso não podiam ser mais cépticos em relação ao fenómeno. “Não há nada de positivo num livro de auto-ajuda como este”, sentencia Victor Cláudio. E acrescenta: É publicidade enganosa e um logro para quem está fragilizado emocionalmente. O especialista considera grave que se diga às pessoas que podem modificar a sua vida sentimental ou monetária através do pensamento. “Só irá criar expectativas elevadas e futuras frustrações. O livro deveria também contar os casos de insucesso”.

Outro psicólogo, Vítor Silva, é taxativo: “O Segredo’ é mera pseudo-ciência. Mistura conceitos como os da lei da atracção com os de física quântica, o que não faz sentido”. E ironiza: “Os autores convenceram as pessoas com o argumento da autoridade: como o Proctor diz que é filósofo, ouvem-no com mais atenção do que se afirmasse que era mecânico. Independentemente de que ele diga apenas alarvidades”.



Texto Hugo Franco
Fotos Tiago Miranda



DISSERAM

“Vocês hoje viveram um milagre”
ADELINO CUNHA, matemático e primeiro orador da palestra do Pavilhão Atlântico

“Uma pessoa não ganha 100 mil euros num ano porque quer, mas porque não está consciente como pode ganhar o mesmo num mês”
BOB PROCTOR, filósofo motivacional

“O livro ‘O Segredo’ é mera publicidade enganosa e um logro para as pessoas que estão emocionalmente fragilizadas”
VICTOR CLÁUDIO, psicólogo




NÚMEROS

10



mil pessoas assistiram à palestra de ‘O Segredo’ em Lisboa

350



mil exemplares vendidos do livro em Portugal, 12 milhões em todo o mundo

445



milhões de euros gastos pelos norte- -americanos em livros de auto-ajuda
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