O cientista que quer ser Deus-Craig Venter Perdeu a corrida na descodificação do genoma. Agora promete micróbio artificial

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O cientista que quer ser Deus-Craig Venter Perdeu a corrida na descodificação do genoma. Agora promete micróbio artificial

Mensagem  Admin em Dom Jun 29, 2008 1:29 pm

Craig Venter Perdeu a corrida na descodificação do genoma. Agora promete micróbio artificial
O cientista que quer ser Deus



Criar uma forma de vida totalmente em laboratório
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O polémico cientista norte-americano vem a Portugal em Setembro FOTO CORBIS/VMI


No dicionário de Craig Venter não há lugar para a palavra ‘consensual’. Em 2000, um grupo de colegas cientistas definia-o assim na revista ‘The New Yorker’. “É um anormal, um idiota. É um espinho nas pessoas e um egomaníaco”. Controverso e milionário, Venter é também um cientista de créditos firmados. Esteve na corrida pela sequenciação do genoma humano, em 2003, e publicou no ano passado o seu próprio genoma, a primeira sequência conhecida de uma só pessoa.

O novo projecto do biólogo americano promete não só importantes avanços científicos como aceso debate ético e filosófico: Venter quer criar a primeira forma de vida artificial, um micróbio desenhado em laboratório. Algo que, a acreditar nas palavras do cientista - que visita Portugal em Setembro - deve acontecer ainda este ano.

Para os seus detractores, Venter está a tentar vestir a pele de Deus. Ele contrapõe com as potencialidades infinitas dos novos micro-organismos: poderão não só ter um papel fundamental no combate ao aquecimento global - através da aplicação na produção de biocombustíveis ou na absorção de dióxido de carbono -, como no tratamento de resíduos tóxicos e até no desenvolvimento de novos medicamentos.

Um dos passos fundamentais para o desenvolvimento de uma forma de vida artificial foi dado no início do ano pela equipa do Instituto Craig Venter, com a criação do primeiro genoma sintético de uma bactéria: a Mycoplasma laborarium. Apesar de ser a maior estrutura de ADN alguma vez fabricada pelo Homem (20 vezes maior que qualquer molécula de ADN sintetizada até hoje), é um organismo relativamente simples quando comparada com um ser humano. Composta por 580 genes, contra os cerca de 20 a 25 mil que integram o genoma humano, tem apenas um cromossoma mas representa um feito: segundo os investigadores, é a segunda de três etapas para a criação de um organismo vivo inteiramente artificial. A fase final, na qual a equipa está a trabalhar agora, passa pelo desenvolvimento de uma célula artificial baseada no genoma da bactéria produzida.

Para tal, é preciso inserir o cromossoma sintético numa célula e conseguir que esta seja capaz de se replicar de forma autónoma e transformar-se numa nova forma de vida. Não se trata de dar vida a uma célula a partir do zero, como estão a tentar outros cientistas, mas antes de esvaziar uma do seu ADN e dotá-la de um genoma 100% sintético. Usando uma analogia do próprio Venter, foi criado o software para o sistema operativo de um computador. Agora, é preciso introduzi-lo na máquina (a célula vazia) e pô-la a funcionar.

Mas o que é afinal a vida artificial? A definição não é fácil, até porque os próprios cientistas têm alguma dificuldade em definir o que é vida. Os próximos anos deverão trazer, por isso, um debate sobre o que define a vida, tanto a real como a artificial. Existem, contudo, alguns aspectos que um organismo artificial deverá possuir para ser considerado vivo. Em primeiro lugar, tem que possuir ADN. Depois, tem que ser capaz de se reproduzir e passar o seu código genético. Precisa, para isso, de uma membrana protectora, semelhante a uma parede celular, que permita o normal funcionamento dos processos biológicos: deve ser suficientemente permeável para absorver os nutrientes mas relativamente impermeável contra os patogéneos. Finalmente, o organismo deve ser auto-sustentável: capaz de se alimentar, adaptar e evoluir.

Para o conseguir, os cientistas terão que ultrapassar vários obstáculos. O primeiro será a criação da membrana celular, que poderá ser anunciada em breve. O segundo passa pelo desenvolvimento de um sistema genético que controle as funções da célula, permitindo que ela se reproduza e se adapte às mudanças ambientais. Mais complicada poderá ser a activação de um metabolismo que permita o processamento de alimento em energia. Se tudo se conjugar, poderá ser ultrapassado o principal desafio: manter o organismo vivo por mais que uns minutos ou horas.

Conseguirá Venter alcançá-lo no prazo que anunciou? “É ambicioso, mas há razões para acreditar que estamos relativamente perto de reconstruir vida ou, pelo menos, processos que ocorrem apenas dentro das células vivas”, conclui Carmo Fonseca, do Instituto de Medicina Molecular da Univ. de Lisboa.



Nelson Marques



DEBATE ÉTICO

Avanço ou perigo?

A criação de vida artificial está longe de ser consensual. Os menos optimistas temem que, como aconteceu com outras inovações, a biologia sintética seja aproveitada para fins menos nobres. “Pode tornar-se numa contribuição tão grande para a Humanidade como um novo medicamento, ou uma enorme ameaça, como uma arma biológica”, advertiu Pat Mooney, director do ECT Group, um grupo de reflexão canadiano sobre bioética. Venter defende-se: “A tecnologia pode ser utilizada para armas biológicas, mas detê-la seria tão absurdo como travar o conhecimento porque pode ser perigoso”, afirmou recentemente ao El Mundo. A biologia sintética tem avançado na ausência de debate público e controlo. Uma lacuna que, segundo a presidente do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, Paula Martinho da Silva, urge ultrapassar. “Torna-se urgente uma grande reflexão sobre as escolhas do nosso futuro, sem alarmismos, mas com a consciência de que muito está a mudar”, afirmou ao Expresso.




QUATRO PERGUNTAS A

Maria Carmo Fonseca, Instituto de Medicina Molecular da Univ. de Lisboa

P Quais são os principais desafios que terão que se ultrapassar para criar vida artificial?

R Precisamos descodificar as mensagens que as moléculas enviam umas às outras dentro das células e perceber como comunicam as células entre si no organismo. Há uns anos, os cientistas pensavam que o segredo estava contido no código genético. Hoje sabemos que não é assim: ainda não somos capazes de compreender o significado das frases escritas no “livro da vida”, apesar de conhecermos o abecedário dos nucleótidos (elementos básicos do ADN, vitais para a função, crescimento e restauração das células).

P Não estão os cientistas a tentar vestir a pele de Deus?

R Não! Os cientistas estão simplesmente a tentar reproduzir em laboratório a génese de processos biológicos característicos dos seres vivos que conhecemos. Sermos capazes de copiar um poema não faz de nós poetas.

P Mas, nesta fase, estamos a falar de formas de vida muito rudimentares.

R Sim, do tipo das bactérias.

P Porque precisamos de vida artificial?

R Até agora, os cientistas limitavam-se a analisar os múltiplos tipos de organismos que existem na natureza. A melhor prova que já conhecemos as leis da biologia é sermos capazes de juntar os componentes químicos das células de forma a reconstruir uma célula viva.




QUATRO PERGUNTAS A

Rui Nunes, presidente da Associação Portuguesa de Bioética

P Como é que a vida artificial mudará as nossas concepções sobre a vida biológica e o nosso lugar no Universo?

R O advento da vida artificial poderá questionar a especificidade da vida humana na medida em que irá esbater o carácter intransponível da espécie. Esta questão é relevante dado que a ordem ética e jurídica internacional depende de um conceito de pessoa humana. A dignidade da pessoa é o valor ético nuclear em todas as democracias do mundo. Se, no futuro, a vida artificial originar seres vivos dotados de consciência reflexiva os fundamentos da organização humana serão questionados.

P Os cientistas estão a vestir a pele de Deus?

R A ciência é moralmente neutra. As aplicações da ciência é que devem ser acompanhadas pela sociedade. Não devem ser colocadas barreiras excessivas à evolução científica. Deve-se fomentar a consciência crítica dos cientistas para que as aplicações sejam em benefício da Humanidade.

P Por que precisamos de vida artificial?

R Não existe uma verdadeira necessidade, mas poderão surgir benefícios no plano terapêutico sobretudo em doenças para as quais não existe ainda tratamento adequado. Por outro lado, a criatividade científica e intelectual é um bem em si mesmo.

P Esta linha de investigação deve, portanto, prosseguir.

R Se existirem mecanismos eficazes de supervisão das suas aplicações, e uma profunda reflexão ética e social, deve prosseguir. A ciência tem sido responsável por grandes conquistas da Humanidade.


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