Prelúdio do mar distante

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Prelúdio do mar distante

Mensagem  Admin em Seg Jun 09, 2008 6:13 am

Prelúdio do mar distante

O pianista João Balula Cid deixou uma carreira de três décadas e um país «que maltrata os seus músicos» e rumou ao norte da Noruega. Trabalha agora numa fábrica de transformação de bacalhau
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João Cid em Kraemmervika, uma pequena aldeia piscatória das ilhas Lofoten

Quando o sol prolonga os dias até ao limite da madrugada e a neve escorre pelas montanhas, os pescadores das Lofoten, no norte da Noruega, sabem que a faina está a chegar ao fim. O bacalhau, base da economia de um arquipélago situado 300 quilómetros acima do Círculo Polar Árctico, viaja para outras paragens, cumprindo um ritual ditado pelos caprichos da Natureza. O mesmo ritual que impõe o regresso dos cardumes, em Janeiro, para a desova. Este ano, a época foi farta, mas a empresa Lofoten Export, que abastece parte do mercado português, continua a negociar com os pescadores locais a compra de mais algum peixe. No alvor de Maio, João Balula Cid, encarregado-geral da empresa, traz boas notícias ao amigo Pedro Gomes, líder da sociedade luso-norueguesa. «Na terça-feira vamos receber três contentores de cabeças de bacalhau, que vou pôr na máquina, para transformar em caras», apregoa. Pedro sorri, franze o olhar, e interroga: «Sozinho?! Não tens medo de estragar as mãos?» A pergunta, embrulhada em ironia, não é inocente. As mãos são uma ferramenta essencial na vida de João Cid. Pianista profissional, com uma carreira de mais de três décadas, este homem de olhar sereno que pesa cada palavra que profere, vive, aos 51 anos, uma tempestade interior, agitada pela distância da Lisboa que o viu nascer e, sobretudo, pela lonjura dos palcos e salões dos hotéis e dos casinos.

O pianista pendura cabeças de bacalhau. Num ano de fartura, a empresa processou mais de 8000 toneladas de peixe, entre Janeiro e Maio

«Em Portugal sentia-me encurralado, encostado a uma parede, sem ter oportunidade de fazer aquilo que realmente queria fazer, que era tocar», diz o músico, num desabafo que sintetiza as razões que o levaram a abandonar o país, em Fevereiro. Foi no decurso de um telefonema que Pedro Gomes se apercebeu de que as coisas não estavam bem com o amigo. Conheceram-se nos Estados Unidos, nos anos 80 do século passado, quando João estudava piano na Montclair State University, de Nova Jérsia, e Pedro complementava o salário da TAP fotografando festas de casamento da comunidade portuguesa. À época eram muito parecidos e várias vezes os confundiram. Até que um dia acabaram frente a frente, como num espelho, e selaram uma amizade que, apesar da distância, se manteve inalterável. «O João trabalhava num hotel de 5 estrelas, em Lisboa. Ofereciam-lhe o jantar, trabalhava cinco horas a tocar piano e pagavam-lhe 30 euros por noite, o mesmo que ganha uma emigrante de leste a limpar casas», relata o empresário, que há mais de dez anos se fixou nas Ilhas Lofoten. Pedro precisava de alguém para coordenar a produção e transformação de bacalhau que a empresa exporta para Espanha, Grécia, Itália, Nigéria e, sobretudo, Portugal; alguém com domínio da língua inglesa, capaz de negociar com os pescadores noruegueses os melhores preços e as condições mais vantajosas. João fez as malas e partiu.

João Cid no intervalo de um concerto no bar Havets Helter (Heróis do Mar), onde a população se reúne ao fim-de-semana

O piano é uma extensão do corpo de João Cid. «Os meus pais tocavam piano, os meus irmãos também, de forma que, desde miúdo, me habituei a ouvir piano em casa». O gosto deu lugar a uma quase obsessão. Filho de um tenente-coronel de Infantaria, João parte, com três anos, para Angola. De regresso a Lisboa, em 1967, entra para o Colégio Militar e começa a aprender música. Nos intervalos das aulas, o maestro Jaime Silva ensina-lhe os intricados caminhos das teclas. As carreiras militares do pai e do irmão José, oficial de Cavalaria, pouco dizem ao jovem João. Aos 17 anos, o piano põe-lhe os primeiros trocos no bolso. Toca em «boîtes» e hotéis e participa na fundação de uma das principais bandas dos primórdios do chamado «rock português». «Faço parte da formação inicial da Go Graal Blues Band e tenho muitas saudades dessa fabulosa banda de blues, que marcou muito o meu início de carreira». João Allain, o guitarrista que passou por todas as formações da Go Graal, recorda «o pianista de excepção, um músico em permanente evolução, reservado, formal, mas extremamente humano». João Cid já não participa na gravação do primeiro disco. Em 1977, viaja para os Estados Unidos, para estudar piano.
Onze anos depois, já casado com uma funcionária portuguesa da ONU com quem teve dois filhos, o pianista regressa a Portugal. Afastado da cena musical, agarra-se ao que aparece. «Dei muitas aulas de Inglês e fiz muitas traduções de filmes para conseguir ganhar algum dinheiro». A pouco e pouco, a tampa do piano começa a levantar-se. Júlio Isidro leva-o para a RTP; músicos como Fernando Tordo, Carlos Guilherme e António Pinto Basto chamam-no para participar em concertos ao vivo e na gravação de discos.
Com mais ou menos aperto, João consegue consolidar a carreira de pianista, mas nos últimos tempos as propostas de trabalho são cada vez mais espaçadas e desinteressantes. O pianista esclarece que não se sente perseguido. «Não é algo que se passe só comigo. Passa-se com os músicos em geral. Há uma falta de trabalho em Portugal, na área da música, que é aflitiva». As razões, na opinião de João Cid, são diversas: políticas de ensino da música erradas, espectáculos caros e os «downloads» na Internet, que subtraem aos artistas os proventos que lhes são devidos e fazem com que «os discos fiquem a apanhar pó nas prateleiras dos hipermercados». Vidas difíceis, portanto.

Kraemmervika: a luz e o ambiente sereno inspiraram uma série de prelúdios do pianista

De fato-macaco impermeável, luvas e botas de borracha, João Cid conduz a empilhadora até junto do estendal, onde milhares de cabeças de bacalhau secam ao sol. Quando estiverem bem secas serão enviadas para as fábricas de farinha da Nigéria, onde o produto é muito apreciado. Sob o estendal, cinco homens ensaiam uma coreografia de gestos sincopados e vigorosos, em torno da última tina de peixe. São todos portugueses, da região de Aveiro, proveniência que se insinua, num incontido orgulho, através da bandeira do Beira-Mar que cobre uma das janelas da fábrica. Faz conjunto com a bandeira das quinas, numa marcação territorial a que os noruegueses das Lofoten já se habituaram. Dentro de dias, o grupo regressa a Portugal, deixando a fábrica nas mãos de João Cid. «Há uma preocupação da empresa em arranjar mão-de-obra especializada e, tendo connosco este grupo, que em Portugal também trabalha na área do peixe, conseguimos melhor produção», explica o encarregado-geral. Poderia acrescentar que a mão-de-obra portuguesa é mais barata do que a norueguesa, mesmo que inclua as passagens de avião, cama, mesa e automóvel para as voltas de fim-de-semana.
João Cid diz que já se habituou aos homens rudes do mar que passaram a fazer parte do seu convívio diário, embora o amigo Pedro Gomes lhe aponte a «atitude algo aristocrática». O pianista solta uma sonora gargalhada e promete que «com o tempo, a pose desaparece».

Amigos: João Cid e Pedro Gomes conheceram-se nos EUA e bastou um telefonema deste último para o pianista rumar às Lofoten

Torgunn Rist, proprietária do bar Havets Helter (Heróis do Mar, em norueguês) onde João Cid anima, ao piano, as noites de fim-de-semana, destaca a evolução do homem que deu à costa das Lofoten. «Quando o conheci, um dia, fomos à pesca. O João tinha medo de tocar nos peixes. Agora não. Adaptou-se muito depressa!», recorda, entre risos, a jovem norueguesa, grata pelo facto do português trazer música a este fim do mundo.
Em Leknes, a cidade mais próxima da casa que João Cid e Pedro Gomes partilham, já todos ouviram falar do pianista que veio do Sul. «Aqui é comum as pessoas terem pianos em casa e quando souberam que estava cá um português que, por acaso, também afina pianos, choveram telefonemas», revela João, feliz pela oportunidade de continuar a fazer aquilo de que mais gosta. O tempo, que nas Lofoten corre devagar, e as montanhas de neve que se espelham na quietude das águas, já lhe despertaram a veia de compositor. Com os olhos no horizonte desenhado a mar e pedra e as mãos sobre o teclado, João Cid dá corpo ao seu Prelúdio de Kraemmervika. E a música parece chamar os cardumes que hão-de voltar em Janeiro.
Reportagem especial no Jornal da Noite de segunda-feira, 9 de Junho, SIC
Reportagem de Carlos Rico (texto) e Rui Duarte Silva (fotografias), enviados à Noruega



Portugueses nas Lofoten

As camas ainda estão desfeitas e há meia dúzia de peças de roupa espalhadas pelo quarto. Armindo Gonçalves enfia tudo num saco, enquanto João Rocha justifica o desalinho: «Isto está tudo desarrumado, mas o que é que se há-de fazer? Não há mulheres aqui». Armindo é o mais velho dos cinco portugueses contratados pela empresa Lofoten Export. Divide o quarto com outros dois companheiros, no primeiro andar da fábrica onde o bacalhau é processado. Aos 65 anos, vive dos 180 euros da reforma de pescador, equivalentes a 13 anos de descontos para a Segurança Social, a que se soma «uma reformazita mais ou menos», do tempo em que esteve na Alemanha. Não revela o montante mas, em contrapartida, fala com total abertura do salário que aufere na Noruega. «Eu e o Carlos, o cozinheiro, recebemos 1500 euros por mês, mais comida, dormida, carro para passear e horas-extra. No mês passado tirámos mil euros em horas». O dinheiro e a falta de trabalho em Portugal determinaram a partida destes cinco homens para as ilhas Lofoten.
«Ganho aqui em três meses o mesmo que ganho, num ano, em Portugal», admite Fernando Matias que, aos 41 anos, já foi padeiro, soldador, bombeiro, massagista e construtor civil. É a segunda vez que deixa a mulher e os três filhos em casa, para vir trabalhar no bacalhau. Não se imagina a sair, definitivamente do país, embora já se tenha rendido ao modo de vida dos noruegueses, sobretudo, no que diz respeito aos apoios do Estado e à segurança: «Eu cá deixo o carro aberto, com a chave na ignição, e ninguém lhe toca», refere Fernando, a título de exemplo. Armindo Gonçalves entra na conversa. Uma queda recente levou-o às urgências do Hospital de Leknes. «Num instante fizeram-me um Raio X, tiraram sangue para análises e viram-me o ouvido. Felizmente estava tudo bem e, como tenho cartão europeu da Segurança Social, não paguei nada». «É outro mundo», acrescenta Carlos Oliveira, que dirige, na Gafanha, um minimercado. O estabelecimento foi casa de petiscos durante 25 anos mas os investimentos impostos pela ASAE obrigaram-no a mudar de ramo. «Os pequenos comerciantes estão de rastos, as grandes superfícies abafam as pequenas e o Governo acaba com o resto», queixa-se o homem que, na empresa, trata da alimentação da equipa. À excepção de Miguel Tavares, o mais novo do grupo, todos os portugueses estão, pela segunda vez, na Noruega. E prometem voltar, no próximo ano, para mais três meses de trabalho.
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