O vício pode matar

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O vício pode matar

Mensagem  Admin em Seg Jun 09, 2008 6:28 am

O vício pode matar
l.s.marques@sapo.pt



Se limitássemos a realidade ao que dizem os membros do governo, Portugal era uma ilha de prosperidade num mundo a desfazer-se
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O comportamento recente do primeiro-ministro e de alguns membros do governo assemelha-se ao de uma pessoa que perdeu tudo ao jogo e se recusa a aceitar a realidade. Atordoados pela desgraça acham que se trata de um azar momentâneo, que a sorte vai corrigir. Pura ilusão. O mundo onde José Sócrates desenhou os seus sonhos de glória esfumou-se na roleta da crise internacional.
É para este novo mundo que o primeiro-ministro não quer acordar. A cada sobressalto, anuncia uma obra pública. A cada nova previsão negativa, avança com um investimento. Em cada mau indicador, procura um elemento positivo. Baniu a palavra crise do léxico governamental, substituindo-a por uma interminável sucessão de acções de propaganda, com as quais pretende “espantar espíritos”, na original designação do incontornável ministro da Economia.
Se limitássemos a realidade ao que dizem os membros do governo, Portugal era uma ilha de prosperidade num mundo a desfazer-se. Infelizmente a distância que vai deste Portugal ao verdadeiro é a mesma que separa a Terra da Lua. O país de José Sócrates é um país de ficção, construído laboriosamente por uma eficaz agenda de propaganda. Só que a propaganda já não chega para esconder a realidade.
Consta que em privado José Sócrates se sente um injustiçado. Os americanos, o ‘neoliberalismo’ e os chineses trocaram-lhe os planos na pior altura. O problema é que só havia um plano, não havia plano B. E não foi por falta de aviso. Todos estamos recordados das reacções oficiais ao documento da Sedes que previa uma “explosão social”. Pois ela chegou e veio para ficar.
A crise que o primeiro-ministro se recusa a reconhecer só agora começou. É estrutural e não conjuntural. Lá fora e cá dentro. As bolhas especulativas no sector imobiliário pressionam algumas economias europeias a ajustamentos dolorosos e a procura global de matérias-primas e bens alimentares vai continuar a pressionar os preços.
Não há como fugir. Isto é o futuro. O primeiro-ministro pode queixar-se do mundo, que não adianta nada. É melhor cair na real. Se o fizer vai ter mais surpresas. Vai constatar que os grupos económicos a que se aliou estão mais preocupados em salvar-se do que em salvar o país. Que o grupo empresarial do Estado tem uma diminuta capacidade para o ajudar. Que os grandes projectos de obras públicas são uma armadilha.
Só tem de queixar-se dele próprio. Das reformas que não fez e que, por isso, tornaram Portugal um país pouco atractivo para investidores internos e externos. Insistir na propaganda é um vício. E como José Sócrates deve saber, dos tempos em que fumava, o vício pode matar. Politicamente, é claro.

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