SEXO E A CIDADE-Dar à língua em N.Y.C.

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SEXO E A CIDADE-Dar à língua em N.Y.C.

Mensagem  Admin em Seg Jun 09, 2008 7:04 am

Dar à língua em N.Y.C.

ESTREOU O FILME «O SEXO E A CIDADE» E HÁ UMA QUESTÃO QUE SE IMPÕE: DE QUE FALAMOS QUANDO FALAMOS DE FEMINISMO?
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CARRIE BRADSHAW, Samantha Jones, Miranda Hobbes e Charlotte York: «O Sexo e a Cidade» é uma fantasia, uma fantasia frequente; mas nem por isso deixa de ser uma fantasia

DIZ-SE QUE O Sexo e a Cidade raramente deixa as mulheres indiferentes. Há quem goste muito e quem não goste nada. Algumas feministas, em particular, detestam. O que é preciso para uma narrativa ser feminista? Defender a igualdade entre os homens e as mulheres? Defender o domínio das mulheres sobre os homens? Mostrar que as mulheres não precisam dos homens para nada? Apresentar mulheres que vivem a sua vida de forma independente e se dão muito bem com isso, obrigado? Para quem prefere esta última definição, O Sexo e a Cidade é uma história feminista. As mulheres que lá aparecem não dependem de ninguém em termos financeiros, e dependem muito pouco mesmo em aspectos de intimidade. Procuram o prazer nos termos que lhes convêm e avaliam os homens com objectividade recíproca.

SARAH JESSICA PARKER - «Após muitos anos, vi-o finalmente como ele era: um canalha egocêntrico, emocionalmente retraído, que foi o melhor sexo que tive em toda a minha vida»

Às definições mencionadas, poder-se-ia acrescentar uma outra: feminismo é emancipar as mulheres dos estereótipos em que a sociedade (i.e., os homens e muitas das próprias) tradicionalmente as confinam. Por exemplo, o estereótipo da obsessão com a aparência e com os trapos. Nesse sentido, O Sexo e a Cidade claramente não é uma série feminista. Ficou célebre a fixação da protagonista em roupa e adereços, especialmente sapatos, de preferência Manolo Blahnik. O guarda-roupa de Carrie Bradshaw daria uma pequena enciclopédia da moda contemporânea, e sabe-se que várias tendências de moda foram estimuladas, quando não espoletadas, por episódios concretos da série. A superficialidade e o materialismo dificilmente se compatibilizam com uma versão clássica de feminismo, e o elitismo económico parece um tanto ou quanto longínquo da fraternidade entre irmãs.
O Sexo e a Cidade, cuja versão de longa-metragem agora estreou, foi exibida enquanto série no canal por cabo HBO entre 1998 e 2004. Antes disso, tivera uma primeira encarnação como rubrica regular na imprensa. Ao longo dos vários formatos, permaneceram constantes os elementos básicos da história. Algumas mulheres, amigas, todas profissionais de classe média ou média-alta - uma é jornalista, outra advogada, outra relações públicas e outra está ligada a uma galeria de arte -, têm casos amorosos que vão discutindo umas com as outras. Frequentam lugares de Nova Iorque associados ao dinheiro, à fama e ao poder e onde, portanto, raramente se encontra a demografia «bridge-and-tunnel» (as pessoas que vivem fora de Manhattan), a não ser por acidente. Num episódio em que por força das circunstâncias uma delas vai para Brooklyn, as outras ficam horrorizadas. O par ideal de Carrie é um tal Mr. Big, com o qual ela passa anos a entender-se e a desentender-se. Apenas sabemos que é rico, grande em mais do que um sentido e anónimo até ao último episódio.

MIRANDA HOBBES - «Querida, é a primeira vez na história de Manhattan que as mulheres têm tanto dinheiro e poder como os homens; e mais o luxo igualitário de os tratar como objectos sexuais»

Aqui temos um primeiro elemento para compreender. O Sexo e a Cidade é uma fantasia. Talvez uma fantasia que algumas pessoas - quem sabe, muitas - vivem parcialmente, mas nem por isso menos fantasia. O tom jovialmente cómico da série televisiva confirma isso. Inicialmente assinados por Darren Star, criador da série, os «scripts» são irónicos e rápidos, mas têm pouco a ver com a sua fonte original, a coluna homónima publicada no «New Observer» por uma tal Candace Bushnell, uma loura viva, magra e pequena que se tornara conhecida por frequentar as melhores festas e locais nocturnos.
Candace Bushnell não é nativa da cidade. Cresceu numa pequena terra chamada Glastonbury, situada no Estado do Connecticut, a umas horas de carro de Nova Iorque. A geografia indicia o privilégio. Com apenas 30 mil habitantes, Glastonbury é a localidade com o rendimento «per capita» mais elevado naquela já de si próspera região. O pai de Candace, Calvin Bushnell, foi o inventor de uma célula fotoelétrica que alimentava os foguetes que foram à Lua. A filha teria ambições igualmente elevadas, mas mais próximas. Assim que pôde, desistiu da universidade e pôs-se a caminho da «Big Apple». Chegou lá aos 18 anos, cheia de energia e com o desejo de se tornar actriz. Falhando nisso, começou a escrever para a imprensa. Nessa altura, já tinha iniciado a sua carreira amorosa com uma parte dos muitos homens que representavam poder e dinheiro na cidade. A todos acabaria por deixar, ou eles deixaram-na, mas ela não diz mal de nenhum, antes pelo contrário. Sempre que lhe perguntam, diz que a pessoa em causa foi fantástica e é fantástica. Para quê perder tempo?

KIM CATTRALL - «Talvez algumas mulheres não sejam feitas para ser domadas. Talvez só precisem de correr livres até encontrarem alguém tão selvagem como elas»

Como muitas pessoas de origem confortável, Bushnell queria uma forma de vida que não fosse especialmente árdua e que não a impedisse de viver como gostava - ou até que a ajudasse nisso. Escrever colunas, em princípio, não custa muito, sobretudo quando se trata de colunas sobre «lifestyle», e a colunista há muito que vive o «lifestyle» propriamente dito. A assinatura de Bushnell foi surgindo numa variedade de publicações dirigidas a mulheres, e em 1994 um amigo convidou-a a escrever sobre aventuras sexuais no mais elitista dos semanários nova-iorquinos, ao qual nem falta a cor de salmão. O título da coluna, que não foi ideia da autora, dizia logo do que se tratava. É o mesmo título depois utilizado na série e no filme.
Bushnell começou por dar à protagonista o seu próprio nome, mas acabou por decidir que era melhor ter um pseudónimo. Escolheu um nome cujas iniciais são iguais às suas, e nunca ninguém duvidou que Carrie Bradshaw era mesmo um alter ego. Nos anos seguintes, O Sexo e a Cidade, com a sua mistura de crónica amorosa e pedagogia turística para apreciadores da «nightlife», tornou-se leitura de culto para milhares de leitores. Não demorou muito até um amigo de Bushnell lhe propor a compra dos direitos. Darren Star, um produtor de televisão que já tinha no seu cadastro séries como «Melrose Place» e «Beverly Hills 90210», compreendeu o potencial da fórmula. Mulheres bem de vida, independentes, sexualmente livres, verdadeiramente amigas umas das outras, que se lançam à guerra pelo amor na cidade mais fascinante do mundo. Conversas explícitas sobre assuntos sexuais, uma filosofia algures entre o romântico e o cínico (mais cínica na coluna, mais romântica na série), valores de produção à altura.

KRISTIN DAVIS - «Quando se é novo, tudo na vida tem a ver com divertirmo-nos. Depois crescemos e aprendemos a ser cuidadosas. Pode-se partir um osso ou um coração»

A escolha de Sarah Jessica Parker para encarnar a protagonista foi um toque de inspiração. Actriz a sério, Parker investiu no papel com alguma da profundidade que já lhe conhecíamos dos seus papéis em filmes. O facto de ser bonita, mas não bela, também foi importante. Se tivesse aspecto de modelo, muitas dos argumentos teriam de ser diferentes. Não é por acaso que um dos episódios versa a questão dos «modelisers», ou seja, dos homens que têm uma fixação em modelos. O poder da beleza, como o do dinheiro, desequilibra quase sempre as situações.
Bushnell vendeu os direitos da coluna por uma bagatela, e consta que não recebeu nem mais um tostão após o êxito da série. Para compensar, escreveu romances e explorou a sua fama. Namorou outras pessoas, manteve-se magra e esbelta e casou recentemente, aos cinquenta, com um bailarino dez anos mais novo. Feminismo? Em termos pessoais, sem dúvida. Bushnell é uma mulher que faz pela vida, pela sua vida, no sentido glamoroso do termo. Ninguém, mulher ou homem, lhe pode pedir mais, e a cidade agradece.

QUATRO ANOS depois de a série de TV ter terminado, «O Sexo e a Cidade» regressa, agora ao grande ecrã. O filme - como na vida, dizem - não é um conto de fadas com final feliz






MULHERES EM GUERRA pelo amor (algures num quarto) na cidade mais fascinante do mundo



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